Eu comprei uma obra de arte. Quer ver?

“Eu comprei uma obra de arte. Quer ver?” é uma série de trabalhos em processo iniciados a partir do ano de 2013. Sua forma de apresentação é por meio de diversos tipos de materialidades (ou meios técnicos) devido sua natureza amórfica.

A proposta do trabalho é a criação e o desenvolvimento espaços de troca e diálogo, que se dão a partir da visualidade de uma imagem e se desdobra a partir de relações variadas de sentidos e significados e acontecendo em fluxo. Borriaud diz “a obra de arte contemporânea não se coloca como término do ‘processo criativo’ (um ‘produto acabado’ pronto para ser contemplado), mas como local de manobras, um portal, um gerador de atividades. (...) Essa cultura de uso implica uma profunda transformação no estatuto da obra de arte.” (Bourriaud, Nicolas. Pós-Produção. Como a arte reprograma o mundo contemporâneo. Martins Fontes, São Paulo, 2009.) Pensando dessa maneira, o trabalho busca exatamente instaurar esse “local de manobras”, um espaço de troca. Por fazer essa proposição, para que ele ocorra, é necessário o olhar do outro. Sem o outro, não acontece a troca e o trabalho não acontece.

Nesse sentido a prática, minha atitude como artista é a criação dessas relações. O trabalho mescla a noção do objeto/imagem e da relação. O objeto estético é a própria relação e é produto de ampliação de relações.

Novamente, por ser um projeto em processo, suas formas de apresentação e/ou materialidade podem ser as mais diversas, desde a fotografia, o texto, o happening, entre outros. Um campo de experimentação é instaurado a partir destas pesquisas, buscando diálogos possíveis com outros meios ou campos de conhecimento.

Eu comprei uma obra de arte. Quer ver? - Fotografia - disparadora. 25cm x 33cm. 2013

Eu comprei uma obra de arte. Quer ver?

Levantamento de tópicos a serem discutidos sobre o trabalho.

 

1- O primeiro contato com o objeto industrial (no caso um esmalte de unha embalado e sua referente nota fiscal de compra.) se dá por suas características visuais. Assim, em uma primeira instância, o produto possui os dizeres obra de arte em sua embalagem. Obra de arte nomeia a cor do esmalte, é o próprio líquido usado para cobrir unhas. Essa cor, como mostra a fotografia do produto, é um tom de laranja saturado. Não são todas as pessoas que acham o laranja uma cor bonita, ainda mais para se usar nas unhas. Conversando com colegas, uns me falavam que gostavam da cor e outras que era impensável usá-la. A partir do olhar, as pessoas começaram a inferir um juízo de valor estético, subjetivo.

2 - Outro ponto relevante de se destacar é o fato da obra de arte estar inserido em uma lógica de mercado, possuindo um valor de mercado. Entretanto essa obra de arte não está inserida no circuito normativo da arte (galerias, instituições, salões, editais, leilões, etc.) cujos valores ultrapassam o seu valor de mercado. Essa obra de arte não está mais restrita a esse circuito, que é consumido por uma parcela pequena da sociedade formada por uma classe detentora de muito capital. A obra de arte está em um mercado de massas devido a seu baixo valor de mercado, assim atingindo uma parcela maior da população. Podemos pensar nas operações da pop art e suas relações com a produção da cultura de massas, mas de fato o seu real consumo ficou restrito a essa classe possuidora de muito capital. Estes levantamentos fazem refletir o papel do artista (inclusive o meu), mas a pergunta que mais ressoa é “Para quem faço o que faço. Para quem faço arte?”. Em algum momento a publicidade tomou para si uma função que era delegada do artista, de comunicação estética com a população.

A Obra de arte faz parte de uma série chamada “Art Love”, nome esse que leva a pensar em paixão ou amor, sentimento subjetivo. Mesmo sendo um objeto de uso objetivo, ele acaba adquirindo diversos elementos de valores subjetivos. Pensar em objetos seriados e com carga subjetiva é praticamente se remeter a produção de gravuras.

3 - À medida que se aumenta os levantamentos sobre a obra de arte, outros são logo apresentados pelo exercício mental de análise. Como a obra de arte dialogar com questionamentos próprios da pintura, pelo fato do líquido, a tinta, ser a própria obra de arte. O objeto possuir um pincel para a aplicação. Ou mesmo por ser um objeto, e assim, possuir forma, função e poder dialogar no espaço físico no qual está inserido, questões da escultura. A partir da ilustração( a fotografia da obra de arte e seu cupom fiscal), que é uma reprodução técnica a idéia de aura existe também nela?

4 - Ponto informacional importante é que a referida obra de arte possui uma data de validade. Uma obra de arte pode vencer/fenecer/acabar? Sou pego por dois tipos de “vencimentos”. O primeiro é um do tipo espacial. Site spefic. Esse tipo de trabalho só “sobrevive” no lugar para qual foi projetado e pensado, no momento em que ele é colocado em qualquer outro lugar diferente do planejado, ele perde sua potência. Outro é do tipo temporal. Obras de arte feitas em determinado tempo em que só se faz sentido em sua época. Em um determinado sentido, toda a produção de arte é isso. Impensável se pensar um obra de arte que não pense o seu próprio tempo.

Quanto ao meio material em si, conversando com um amigo sobre isso, ele mencionou o esforço da restauração e conservação de obras de artes. A necessidade de ser evitado ao máximo o “vencimento” da obra de arte e sua permanência na posteridade.

5- Assim: a obra de arte (esmalte) já está pronta e resolvida nela mesma. Eu, como artista, não posso/pretendo/devo mexer nela. Ela (esmalte) já é obra de arte por si mesma e em seu próprio circuito. A minha obra de arte/trabalho, meu ato como artista está voltado para o discurso. Acredito, que diferente do ready made, que desloca o objeto(industrial/cotidiano) de seu contexto e o insere em outro(o da arte) Ou o contrário( A arte em um contexto cotidiano como no caso de Cildo no projeto coca-cola) O meu objetivo é não mais o deslocamento do obejto, mas sim o deslocamento do olhar. A obra de arte (esmalte) é apenas uma "desculpa" agora. Ela só funciona como trabalho se se mantiver no circuito dela (lojas americanas?). Paulo Venancio no texto Ready Made fala que "O artista agora não fica mais em seu estúdio entre tintas e pincéis. Ele sai às ruas, olha as vitrines, à espera de um encontro com uma provável obra de arte. Que espécie de artista é esse? Tudo deve estar ao contrário, para que esse artista não precise tocar em nada, para que já encontre sua obra pronta. Na verdade ele é esse contrário, esse sinal.". A minha obra de arte (meu discurso) é o deslocamento do olhar. A arte em qualquer Lugar/Tempo.

Eu comprei uma obra de arte. Quer ver? - Texto - disparador do diálogo, impressão sobre papel, 3 páginas. 29,7cm x 21cm. 2013

Eu comprei uma obra de arte. Quer ver?  - Registro. Imagem-Convite em espaço não-físico. 2013.

Eu comprei uma obra de arte. Quer ver?  Registro - Fragmento

de espaço não físico do instante de troca/diálogo. Plataforma

de rede social "facebook". 2013

Convite para participação da prospota/projeto.

 

Para a expansão do trabalho e possíveis formas de experimentação, tanto no campo da arte como em outras áreas, gostaria que você entrasse em contato comigo, se possuir o interesse.
Podemos marcar para a instauração desse espaço de troca, tanto físico ou não.

 

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